
(Tarsila do Amaral - Carnaval de Madureira)
Tarcila do Amaral, notória artista plástica brasileira, passou o carnaval de 1924 no Rio de Janeiro, após voltar de uma viagem à Paris. Na obra, a artista centralizou a famosa Torre Eiffel parisiense.
Madureira
Que sorte ter esse olhar paranóico-urbano
Olhar que cobre nuvens acinzentadas de pó e sujeira
Nuvens que pairam sobre o céu de Madureira
Loucas, pávidas, sábias
E nesse olhar poeira-quebra-pedra
Olhar que atravessa
Outros olhos, poros, viaduto
Terra de nada, ninguém ou de todo mundo?
Do trabalhador, suado, do travesti, profano
Do homem afeminado que atravessa aquela avenida
Do som que saem dos postes
Do chão em que se ouvem as mortes
Anunciadas do alto do morro
Terra que grita SOCORRO
Mas que também grita perdão
O batuque daquela outra esquina, outrora apagada
Ecoa por mais tantas esquinas, todas iluminadas por nada
Posso ver tantos rostos, alguns repetidos
Posso ver tantos traços, alguns claros
Posso ver tantos olhos, alguns sofridos
Alguns ninguéns, poucos alguns, gente que se mistura
Feio água no pote
Água sanitária para espantar essa má sorte
Não vá esmorecer, a noite está para chegar
- Dorme, meu bem, que o pagode e o tiro estão para retomar
Retomar o morro, retomar o chão
Retomar o que já foi tomado
Enquanto você dorme, meu filho, rezo ao pai
Que nos proteja
E que o ajude a escolher o pagode ao tiro, meu bem
Porque de pagode ninguém morre - pelo contrário, vive mais
De tiro morre mais de cem, tudo jovem, ainda rapaz
Naquela outra esquina, mais um pouco de poeira
E foi aqui que me vi essa noite: Madureira

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